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Audiência no STF abre caminho para acordo na disputa territorial entre Mato Grosso e Pará; proposta de RIDE ganha força

A disputa territorial entre Mato Grosso e Pará, que se arrasta há décadas e afeta diretamente milhares de moradores da região de divisa, entrou em uma nova fase de negociações no Supremo Tribunal Federal (STF). A primeira audiência de conciliação da Ação Rescisória (AR) 2.964 abriu espaço para uma solução negociada, com destaque para a proposta de criação de uma Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE), apresentada durante as discussões como alternativa para reduzir os impactos sociais e administrativos do litígio.

A audiência reuniu representantes dos dois estados e de instituições envolvidas no processo. Pelo lado do Pará, o ex-governador e ex-ministro Helder Barbalho liderou pessoalmente a delegação paraense. Já por Mato Grosso, chamou atenção a ausência do ex-governador Mauro Mendes, enquanto o atual governador Otaviano Pivetta participou apenas de parte da audiência, deixando o encontro antes do encerramento.

Entre as propostas apresentadas, ganhou destaque a iniciativa defendida pelo senador Wellington Fagundes (PL), que sugeriu a criação de uma Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE). O mecanismo, previsto na legislação federal, permitiria uma gestão compartilhada de políticas públicas entre os entes federativos, priorizando o desenvolvimento regional e a continuidade dos serviços prestados à população, independentemente da definição definitiva dos limites territoriais.

Assembleia Legislativa atua pela conciliação

Outro ator que vem desempenhando papel relevante nas negociações é a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). Sob a presidência do deputado Max Russi (Podemos), a instituição tem defendido uma solução construída por meio do diálogo.

A representação jurídica da Assembleia no STF é conduzida pelo subprocurador-geral Bruno Leite, responsável por defender uma saída conciliada durante as tratativas perante a Suprema Corte.

Municípios defendem solução negociada

Os municípios diretamente atingidos pelo litígio também passaram a participar ativamente das discussões.

Em ofício encaminhado ao ministro Flávio Dino, relator da Ação Rescisória 2.964, a Prefeitura de Novo Mundo manifestou apoio à construção de um acordo e apresentou propostas para minimizar os impactos da disputa.

Entre as sugestões encaminhadas estão:

* realização de uma inspeção judicial na região para que o STF conheça de perto a realidade vivida pelos moradores;
* suspensão do processo por 90 dias para instalação de uma mesa técnica interinstitucional;
* elaboração de um regime de transição gradual e seguro;
* debate sobre a realização de um plebiscito, permitindo que a própria população manifeste seu pertencimento territorial.

No documento, o município argumenta que a alteração abrupta da divisa gera insegurança jurídica, fundiária, administrativa e financeira, afetando diretamente moradores, produtores rurais e a prestação de serviços públicos.

A prefeitura também ressalta que a delimitação geográfica atualmente discutida não corresponde aos vínculos históricos, sociais e econômicos construídos pela população ao longo de décadas.

Origem do conflito

O fortalecimento da proposta da RIDE também está relacionado à própria história de ocupação da região.

Municípios como Guarantã do Norte e Novo Mundo surgiram durante os programas federais de colonização promovidos nas décadas de 1970 e 1980 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que incentivou milhares de famílias de diversas regiões do país a ocuparem a área atualmente em litígio.

Nesse contexto, defensores da proposta sustentam que a União possui responsabilidade histórica na construção de uma solução para o conflito, uma vez que foi protagonista do processo de ocupação territorial.

Prioridade deve ser a população

Os defensores da conciliação argumentam que o foco das negociações deve deixar de ser exclusivamente a definição dos limites territoriais e passar a priorizar os impactos sobre as pessoas que vivem na região.

Outro defensor de uma solução construída por meio do diálogo é o advogado Dr. Fábio Henrique Alves, que acompanha as discussões envolvendo a disputa territorial e defende a criação de uma Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE) como alternativa capaz de preservar os direitos da população residente na área em litígio. Segundo ele, a prioridade deve ser garantir segurança jurídica aos moradores e assegurar a continuidade dos serviços públicos, independentemente da definição definitiva dos limites entre Mato Grosso e Pará.

No ofício enviado ao STF, a Prefeitura de Novo Mundo afirma que o objetivo é evitar que uma eventual decisão judicial produza novos “rostos de sofrimento”, expressão utilizada em referência à Conferência de Puebla para destacar os efeitos sociais que podem decorrer de mudanças abruptas na organização territorial.

A expectativa é de que Mato Grosso, Pará e a União avancem na construção de um entendimento comum, utilizando instrumentos como a RIDE para garantir segurança jurídica, continuidade dos serviços públicos e desenvolvimento regional.

Caso haja consenso entre os entes federativos, a solução poderá transformar um dos mais antigos conflitos territoriais da Amazônia Legal em um exemplo nacional de resolução por meio do diálogo e da cooperação institucional.

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